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Qual escola escolher para meus filhos?

O que levamos em conta ao escolher uma escola

Na infância e adolescência, estudei em escola pública e não havia muito o que decidir: você buscava vaga onde era perto de casa, de preferência, mas às vezes acabava matriculado em uma unidade no bairro vizinho. Hoje em dia, quem pode arcar acaba optando por uma escola particular para prover a educação de seus filhos. E dá-lhe visitar colégios, conhecer métodos, analisar da aparência das dependências até a maneira como tratam os alunos – além, é claro, de pesar no bolso se dá para suportar a cara mensalidade.

Por uma conjunção de fatores, quis o destino que nossas filhas estudassem num colégio que ficava perto dos nossos empregos e também não muito longe de casa. De porte médio, a escola tem uma história muito bacana e coincidiu na época com o que procurávamos: um ensino menos tradicional e mais aberto a experiências, porém, sem ser alternativo demais (conhecido como sócio-construtivismo).

A sensação que tive foi de que nossas meninas iriam sair dali para a faculdade, caso não surgisse alguma mudança séria em nossas vidas (como morar em outra cidade ou país). Imaginava que fariam amizades que perdurariam por boa parte do ensino fundamental e médio. Pura ilusão.

Comunicação faz a diferença

Embora as duas tenham entrado na escola desde o maternal (aos cinco meses de idade apenas), com o tempo os primeiros amigos se foram: gente que se mudou, famílias que não gostaram da forma como os filhos estavam recebendo a educação, pais que não suportaram as pesadas mensalidades e por aí vai.

Parte dessa inconstância teve a ver com as mudanças em nossa sociedade. Já não dá para seguir um currículo travado, é preciso enxergar como as crianças veem o mundo hoje, de uma forma diferente, sem falar na rapidez de aprendizado, bem além da nossa compreensão. Pressionadas a evoluir, algumas escolas acabam cometendo erros, seja no ensino em si como também no relacionamento com pais e alunos.

Foi o que vimos ocorrer há cerca de três anos. Mudanças no conceito da escola não foram bem explicadas ou comunicadas. Assuntos internos acabaram vazando por meio dos grupos de whatsapp dos pais e sem que a instituição se pronunciasse a tempo de desfazer mal entendidos.

O resultado foi uma grande debandada, seja de pais que buscaram um ensino mais tradicional, seja de famílias que pesquisaram outras escolas com uma proposta semelhante, mas que pareciam mais cientes de seus papéis.

Nós relutamos por muito tempo antes de decidir mudá-las de escola. Apesar de vários episódios desagradáveis, optamos por dar vários votos de confiança para o colégio, na esperança de que ele, enfim, assimilasse os erros e acertos dessa transformação. Mas a situação seguiu piorando e acabamos voltando ao roteiro de visitas à outras escolas.

Muito a analisar

Escolher outra escola dessa forma não é uma tarefa das mais agradáveis afinal você chega a pensar que pode acabar colocando seu filho num lugar pior. E tem mais: por mais comum que hoje pareça ser, fazer uma criança recomeçar todo um processo de relacionamento em outro local em que ele não possui referências é um processo delicado, embora necessário – quantas vezes não vamos passar por isso na vida adulta.

A primeira parte da história foi consultar pais de amiguinhos que saíram antes e ouvir o que tinham a dizer de outros estabelecimentos de ensino. Na região em que moramos, isso significa ao menos dez opções a uma distância de não mais que 5 quilômetros de casa.

Optamos por não mudar o método de ensino. Embora gostemos de algumas características do sistema Waldorf achamos que seria uma situação complicada para nossa filha mais velha, com sete anos no momento. Ela já é ‘alfabética’, ou seja, sabe ler e escrever, mas sem a gramática correta. Pelo que sabemos, nas escolas com método Waldorf, apenas no 2º ano as crianças são de fato alfabetizadas.

Um colégio tradicional estava fora de questão. Sofremos com esse método de provas, testes e pressão para aprender e não é algo que buscamos para nossas meninas. Queremos, sim, que aprendam a importância de se esforçar, porém, achamos fundamental gostar do que faz e que tenham um bom motivo para aprender o que propomos.

Com isso, a lista se reduziu a quatro lugares. Dois deles não se encaixavam em nosso orçamento e foram descartados logo em seguida. Sobraram outros dois que visitamos tempos depois.

Foco em ensinar

As duas escolas que conhecemos foram bem recomendadas por quem consultamos. A primeira possui cerca de 800 alunos e fica numa área muito grande e bem arborizada. Assim como no colégio em que nossas filhas estudavam até 2016, ela possui o ensino médio e os alunos adolescentes convivem com os pequenos, o que não acho ruim desde que não seja um contato tão frequente a ponto de terem contato com atitudes as quais não estão ainda preparados para lidar.

No entanto, as turmas ficam muito espalhadas e achamos a estrutura para esportes e educação física fraca. Da primeira escola delas, sempre curtimos o fato de as crianças do ensino fundamental conviverem muito, inclusive com a educação infantil, onde está nossa filha mais nova. Já nesse colégio, a educação infantil fica em outro endereço, bastante distante. No fim, levamos em conta a impressão das meninas e elas não curtiram o lugar.

A segunda escola, que de fato escolhemos, surgiu de um processo curioso. Bastante disputada, foi demorado até conseguir visitá-la, mas a grata surpresa foi que a própria diretora e mantenedora nos atendeu. Foram ao menos duas horas de conversa, explicando a origem do estabelecimento e seus valores, antes que visitássemos as dependências.

Embora mais simples e menor, a impressão foi muito boa por perceber que as pessoas ali estão envolvidas com o ensino e em oferecer mais do que o obrigatório. Algumas matérias estão inclusas na grade curricular sem nenhum acréscimo no valor, com o objetivo de preparar melhor os alunos no futuro. Mas o que mais nos chamou a atenção é saber que há uma filosofia de ensino e não apenas em atrair alunos para bancar os custos. Sinal disso é que a escola possui uma mensalidade mais baixa que as demais, mas não aceita nenhum tipo de negociação. Para mim isso faz sentido porque ensinar é um serviço tão especial que não pode ser colocado na mesma categoria de qualquer outra atividade cujos preços são determinados visando obter primeiro uma margem de lucro.

O que levamos em conta

Claro que tudo isso foi uma primeira impressão e vamos descobrir neste ano se a boa expectativa se confirmará (volto a atualizar este post assim que tivermos uma opinião formada). Compartilho a seguir alguns pontos que analisamos nesse difícil processo:

1 – A escola precisa de um ‘dono’: assim como uma empresa, é preciso uma cara para a escola. Não é necessário que ela seja de fato o proprietária, mas uma pessoa acessível e com atuação clara. Foi um dos pontos que nos decepcionou na escola antiga. Depois que a mantenedora se afastou tudo ficou nebuloso – não sabíamos quem havia assumido e os diretores se sucederam sem que ficasse claro o que estavam fazendo.

2 – Comunicação é a base de um bom relacionamento: num ambiente com centenas de pessoas, além de seus pais e parentes, uma comunicação deficiente causa desgaste a todo momento. A escola precisa saber explicar o que está fazendo e por que está fazendo antes que a mensagem chegue deturpada aos pais. Se haverá alguma mudança futura ou alguma experiência isso tem que ser explicado com antecedência assim como os pais devem estar cientes do que seus filhos aprenderão no bimestre, por exemplo.

3 – Escola e pais têm que falar a mesma língua: se escolhemos um colégio é preciso saber se os valores passados por ambos são semelhantes e complementares. Dou um exemplo: suamos para evitar palavrões em casa e em fazê-las ter contato com temas fúteis, mas vivíamos surpreendidos com músicas de conotação sexual, jogos violentos ou palavrões trazidos por outros alunos. É papel da escola atuar nesses casos e não ignorar o assunto.

4 – Escola deve defender quem respeita os demais: o correto é que o aluno que não se encaixa na sociedade receba auxílio para entender que é parte de um grupo e não o centro das atenções. Entender que há limites e que deve respeitar o próximo. No entanto, presenciamos caso de alunos foram alvo de bullying por outro colega, mas mesmo reclamando não tiveram amparo do colégio. Ao ignorar esse fato, acabam encorajando um comportamento inadequado. Nesses casos, a escola deve intervir e se a situação não melhorar, pode e deve negar a matrícula ao aluno transgressor.

5 – Bons profissionais valorizados: cansamos de anotar nomes de coordenadores, professores, auxiliares e profissionais administrativos nesses seis anos. A rotatividade muito alta, fossem bons ou maus profissionais, é um sinal de uma escola que não tem uma diretriz clara.

6 – Bom senso: eis aí um requisito tão simples, mas que se torna complicado se não há gente preparada. Seja na hora de definir um passeio ou uma lista de materiais, é necessário moderação e clareza para não criar problemas para os pais. Até mesmo uma reforma de um brinquedo, feita sem consulta e de uma forma que causou problemas para as famílias, acabou sendo vista como um erro por melhor que foi a intenção dos diretores da escola. Tempo e dinheiro desperdiçados à toa.

7 – Diferenciais: escola não é um lugar para despejar seu filho e correr para o trabalho. É um ambiente em que ele passa maior parte do dia em muitos casos e o tempo tem que ser bem aproveitado e também divertido e interessante. Buscar nossos filhos e encontrá-los assistindo TV ou um vídeo não é algo que aceitamos. Há tanto que aprender e uma boa escola não pensa apenas no trivial, ela tem que buscar novidades, tendências e assuntos que complementem o ensino.

8 – Preço justo: o custo no bolso dos pais é pesadíssimo. Por essa razão, não basta instituir uma tabela de preços irreal. Por exemplo, criando um período integral só viável para quem pode e precisa deixar os filhos 11 ou 12 horas por dia. E quem não se enquadra é obrigado a gastar à toa ou ter um serviço ruim? Na nova escola, o integral não é diferenciado pelo horário, que é flexível – você paga o período fracionado que precisa. As atividades para quem fica três horas são as mesmas para quem contrata cinco.

O assunto, como se percebe, é bem amplo e deixo aberto para quem quiser contar sua experiência com a escolha da escola para seus filhos.

 

Sobre o autor

Ricardo Meier

Jornalista do setor automotivo há 13 anos, tenta ajudar no que pode no dia a dia dos filhos, apesar de já ter até derretido mamadeira esquecida na panela.

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