O que esperar ao mudar-se para a “terra da rainha”

As diferenças vão muito além do fish & chips
Ai que confusão

A passeio, a trabalho ou de mala e cuia, o que geralmente esperamos de diferente ao chegar na Inglaterra é, tomar cuidado ao atravessar a rua, deixar o arroz e feijão de lado para apreciar um fish & chips, preparar-se para a constante garoa e para a frieza dos ingleses (coisas que realmente não são bem assim). Pois ilude-se quem pensa que realmente é somente isso.

Logo de início é gritante a diferença da língua. Cresci estudando e trabalhei usando o inglês americano, e então a pessoa tem certeza que sabe tudo da língua, que é preciso somente aperfeiçoa-la, quando na verdade, em algumas ocasiões, é impossível compreende-la! Não se trata apenas do sotaque, o jeito elegante do britânico falar, são as palavras e os jargões também, de uma olhada em algumas palavras diferentes entre o americano e o britânico:

Do português para o inglês americano e britânico.

Quase enlouqueci ao conversar com a professora de uma das meninas e ouvi-la pedir para que a Lu levasse os trainers (tênis) dela para que ficassem na escola a semana toda, ou uma cliente da loja de sapatos me dizer que não era muito keen to (não gostava ou não estava interessada em) tal cor de sapatos e a cara de espanto de uma das amigas das meninas ao perguntarmos se ela havia chupado pacifier (chupeta) quando era bebê, parecia que estávamos falando… outra língua!

Muito além do fish & chips

A direção das ruas, que loucura fazer a cabeça funcionar do lado contrário. Então, nós nos acostumamos em olhar na direção correta para atravessar as ruas sem sofrer acidente e vamos para dentro do carro aprender a dirigir – que angústia, quanto nervoso e medo. E dirigir nas rotatórias ou roundabouts, a cabeça pifa. Depois de mais de um ano dirigindo do “lado errado” há vezes que ainda procuro o cindo de segurança do lado esquerdo. Falando em trânsito e carros, nos subúrbios a maior parte das casas e apartamentos possuem garagem, coisa que no centro não é fácil de encontrar, mas elas que são usadas como lavanderias, lugar para guardar bungingangas, tudo menos o carro e o inglês muitas vezes nem coloca o carro na entrada principal de casa, ele fica na rua mesmo (igualzinho brasileiro que mesmo dentro da garagem cobre o carro para não riscar a pintura).

Esqueça os três, quatro banheiros por residência, quando encontra um local (mesmo que seja uma casa de três quartos, longe da cidade) que tenha dois banheiros, é melhor agarrá-la, pois é raridade. Nem lavabo é fácil de achar, em apartamento, casa térrea ou sobrado o negócio aqui é um banheiro só, quando muito o vaso sanitário separado num quartimho ao lado do banheiro com chuveiro, ou melhor, banheira.

Não se assuste ao ver cachorros fora da coleira andando pelas ruas e pelos parques. Também não entendo, mas os cachorros saem correndo pelos parques e ao ouvirem uma voz de comando voltam para o dono imediatamente. Mesmo assim, não fico confortável com essa situação, muitas vezes tratam-se de animais grandes e de raças que podem ser nervosas. Ah, a presença de esquilos e raposas é comum e constante em qualquer lugar, mesmo no centro da cidade, lembro-me em São Paulo de ver famílias de micos andando pela fiação no bairro e ficarmos encantados, aqui a gente acorda avistando os esquilos nas ávores para tomar seu café da manhã e em dias ensolarados nos deparamos com algumas raposas tomando sol no jardim ao lado de casa.

Emenda de feriados? Não! Se os feriados caem entre 3a e 6a feira, são auromaticamente transferidos para 2a feira, sempre. E as férias escolares? Ah sim, estamos acostumados a férias duas vezes por ano e já nos descabelamos. Na Inglaterra o período de aula é dividido em termos, termo de outono (de setembro à dezembro), termo de primavera (de janeiro à março) e termo de verão (de abril à julho) e cada termo há pelo menos uma semana de férias (em abril são duas semanas), fora as férias de verão em agosto que tratam-se de mais de 40 dias e as duas semanas entre Natal e Ano Novo. É muita administração de tempo e flexibilidade no trabalho para conseguir conciliar tudo, mas é factível e a divisão de tarefas entre os pais é completamente natural.

Querem mais? Escovar os dentes! Aqui está tudo certo escovar os dentes duas vezes ao dia, de manhã e de noite, pronto. Quero morrer, socorro! Não adianta colocar necessaire na mala das crianças e adverti-las para lembrarem da higiene bucária, ninguém “perde tempo” para dar uma corridinha ao banheiro e uma escovadela nos dentes. Durante o curso que fiz para trabalhar no aeroporto, eramos uma turma de aproximadamente 20 pessoas, cada um de um canto do mundo e dentre elas havia eu, a brasileira e uma columbiana, Nós duas a cada refeição que fazíamos passávamos pelo banheiro para escovar os dentes, numa dessas idas uma inglesa que estava em nossa turma nos interceptou: digam o que é que vocês têm com seus dentes. Por que os escovam tantas vezes? Quando contei que a cada refeição nós temos que escovar os dentes ela quase cai de costas. Acreditem, até nas instruções das escovas dentais vêm a orientação para que escovem os dentes DUAS vezes ao dia. Nossa, parece que surgem cáries nos meus dentes só de pensar.

E em dizer que só começamos, as mudanças não param por aqui.

Renata Meier

Formada em Letras, é atualmente assistente executiva. Apesar da carreira, sempre teve em mente o objetivo de criar seus filhos de perto, vivenciando ao máximo cada momento deles.

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