Lulica

Vivemos no século 21 mesmo?

Certa tarde, parada num local público, estava observando as pessoas passando e refletindo em como enxergamos e vivemos com as diferenças e o quanto isso impacta nossa vida.

Fico chocada em pensar que a abolição da escravatura aconteceu há mais de 100 anos e ao nosso redor, no dia-a-dia, fica claro como não existe igualdade de raças. Na verdade não existe igualdade de nada nesse mundo em que vivemos, mas a questão da raça é gritante. Triste saber que em alguns lugares ainda existe a cultura escravagista na empregada doméstica, a babá, o motorista; a maior parte deles negros ou pardos; em outros lugares pode não mais existir esse tipo de trabalho, mas o negro ou o imigrante ficam escondidos nas cozinhas dos restaurantes, cuidam da limpeza de locais públicos, trabalham como seguranças nos museus. Fico mais chocada ainda por acharmos isso “normal”, por pensarmos que isso é dar oportunidade para todos. É mesmo? Mas olhe ao seu redor e veja quantos executivos negros você conhece? Mulher negra em cargo executivo então… Está aí, escancarado, para todo mundo ver mas quase ninguém nota. Isso é o pior.

Sei que é um assunto delicado, polêmico, mas tem que ser discutido e falado abertamente.

Falta de acesso ao básico

No Brasil, país que nasci e cresci, quase não víamos crianças negras estudando em escolas privadas, pelo menos nos locais nos quais minhas filhas estudaram. Nas escolas da Inglaterra essa diferença não é gritante porque todos têm acesso a escola pública com boa educação, negros, brancos, indianos, orientais, todos juntos na mesma sala. Mesmo assim, num país que o acesso à educação e saúde é direito e acessível a todos, como disse antes, há discriminação… Não tem jeito, foi algo colocado bem lá no fundo do ser humano e há pessoas que não querem ver o quão isso é ridículo e quanta desgraça causa.

De onde vem essa diferença? Por que depois de tantos anos ainda há pessoas sofrendo com a discriminação de raça?

Eu cresci no meio dessa diferença, um dos meus tios agregados é negro (casado com uma filha de alemão), na igreja que eu frequentava quando adolescente eu era a minoria e sim, fui discriminada na época por ser branca e por acharem que era “burguesa” só porque frequentava escola particular (mal sabiam o quanto de horas extras meu pai precisou fazer e o tanto de salgadinhos minha mãe vendeu e dar conta de pagar a tal da escola.

Enfim, cresci com amigos negros, vários amigos asiáticos, numa bagunça de crenças – crentes, católicos, espíritas e ateus. E agora nossas filhas estão tendo a possibilidade de conviver com todas essas diferenças (o que é bem diferente de só ouvir da boca dos pais), ver o quão bacana é ter amigos de muitas outras raças diferentes, línguas diferentes, costumes diferentes e terem a certeza que todos nós somos iguais independente da cor, da religião – com exceção do time de futebol – aqui só entra corinthiano!

Até quando a nossa imaturidade, ao insistir que existem pessoas superiores às outras, continuará destruindo sonhos e acabando com famílias como se hoje estivéssemos na Idade Média e não pleno Século 21?

Torço para nossos filhos cresçam sem cercas raciais e vivam num mundo em que o respeito ao próximo é a condição básica, não importa o que o outro pense.

Renata Meier

Renata Meier

Formada em Letras, é atualmente assistente executiva. Apesar da carreira, sempre teve em mente o objetivo de criar seus filhos de perto, vivenciando ao máximo cada momento deles.

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