Entre adaptar-se e improvisar quando bate a saudade do Brasil

Após mais de um ano na Inglaterra, assimilamos várias rotinas locais, ficamos surpresos com coisas que não esperávamos encontrar e tiramos da cartola algumas receitas nacionais
Feijuca "a moda londrina"

Qualquer mudança em nossa rotina nos coloca em alerta, mesmo para uma pessoa que, como eu, adora novidades. Mas quando se trata de mudar de país, não tem jeito, a ansiedade, frio na barriga e um medinho surgem a todo momento. Foi o que vivenciamos por aproximadamente um ano, a partir do momento em que decidimos ir para a Inglaterra e até a chegada ao novo lar. Durante o tempo de planejamento e execução, por assim dizer, tudo passou pela cabeça: vamos nos adaptar? Conseguir nos comunicar (mesmo sendo formada em tradução de inglês)? Onde vamos morar? Como será a escola das nossas filhas? E, entre outros tantos questionamentos, vamos conseguir nos alimentar direito?

Logo nos primeiros meses no Reino Unido, enfrentamos as diferenças mais gritantes como precisar dirigir do lado direito, que dá um belo nó na cabeça. Mas com o tempo, você se adapta e ganha confiança, embora ache até hoje pouco natural – mas também depois de quase 30 anos não há como zerar isso!

Por falar em automóvel, na hora de abastecer só mesmo gasolina ou diesel, se você ainda encontrar um carro com motor desse tipo. Álcool? Só na bebiba mesmo. Nem mesmo como produto de limpeza se encontra – que saudade do Zulu… Em compensação, a variedade de produtos de limpeza é gigantesca. Difícil também é encontrar uma boa vassoura ou um rodo, o negócio aqui são os famosos “Mops” e vários produtos para limpar carpetes.

As plantas dos imóveis são outra novidade que exige adaptação. Para quem morou em apartamentos com as famosas varandas “gourmet”, os ‘flats’ provocam um choque. Há até varandas, mas pequenas e que mais acomodam tranqueiras do que servem para relaxar. Mas o aspecto que mais chamou a atenção foi a ausência de área de serviço. Trata-se de um reflexo da vida na Europa, em que as pessoas não perdem muito tempo com certos detalhes que nós brasileiros levamos mais em conta. Por isso, a máquina de lavar roupas está lá no meio da cozinha mesmo ou, para quem mora em casa, na garagem – até porque o inglês a usa para tudo, menos para guardar o carro.

Máquina de lavar roupa dentro da cozinha: esqueça área de serviço (Reprodução/redes sociais)

Aí é que sentimos falta de um item tão básico, o tanque. Que falta ele faz quando nossas filhas voltam encharcadas de lama depois de praticarem algum esporte ou quando a escola decide que vai fazer um tour pelos campos de dentro da instituição durante um dia de chuva. Para o britânico não existe tempo feio: basta calçar as “wellies” (Wellington boots, as nossas galochas) para não ensopar os pés na água e na lama e se divertir. O jeito é lavar tudo na banheira mesmo…

Prato de casa

Depois de tudo isso você deve estar se perguntando: “o que esses malucos foram fazer fora do Brasil?” Na verdade, após um primeiro momento de estranheza, você se adapta super bem a tudo isso, ainda mais quando a mudança é desejada há tempos. E também descobre que algumas culturas que estão na Inglaterra há mais tempo trouxeram produtos com os quais a gente nem sonhava encontrar aqui.

Uma das boas surpresas veio dos indianos, que consomem um arroz delicioso, o Basmati, que lembra o “agulhinha” brasileiro, mas é mais perfumado e saboroso. Graças a eles também encontramos a cassava, nossa querida mandioca. Isso mesmo! Ninguém esperava que seria possível ter mandioca frita para acompanhar uma feijoada, sem paio, mas com costela, farofa, rodelas de laranja, num almoço de sabadão. E até uma deliciosa couve, ou spring green, fez parte de nossa primeira “feijuca” inglesa.

E, de quebra, ainda demos de cara com o Halloumi, uma espécie de queijo coalho muito apreciado por aqui. Mesmo com tantos árabes morando em Londres, não é todo lugar que você encontra a Fatayer, a nossa gloriosa esfiha. Ainda assim, ela é um pouco diferente da brasileira. Nesse caso, o jeito foi improvisar em casa mesmo.

 

Esfiha caseira para matar a saudade do Brasil

 

Embora seja possível encontrar bons restaurantes brasileiros espalhados por Londres, muitas vezes até vale tentar fazer guloseimas em casa numa boa. Pouco tempo atrás, ficamos com vontade do bom e velho pastel de feira e aí juntamos o útil ao agradável ao comprar uma máquina de fazer macarrão para abrir a massa – um dia, quem sabe ela servirá também para fazer um talharim caseiro…

Encontramos um receita bem legal de pastel e que dispensava a cachaça e…voilá. Só faltou mesmo o caldo de cana, que foi substituído por uma boa cerveja e refrigerante (autorizado a ser consumido uma vez por semana em casa!) . Ah, sim, se tiver com vontade de Guaraná Antarctica, basta arrumar um pouco mais de tempo e ir a algum mercado português ou brasileiro na região e pronto.

Se é impossível saborear a iningulável comidinha da mãe ou da sogra ao menos a gente se sente um pouquinho mais perto do Brasil.

Renata Meier

Formada em Letras, é atualmente assistente executiva. Apesar da carreira, sempre teve em mente o objetivo de criar seus filhos de perto, vivenciando ao máximo cada momento deles.

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